domingo, 27 de fevereiro de 2011

Solidão (Vinicius de Moraes)

A maior solidão é a do ser que não ama. A maior solidão é a do ser que se ausenta, que se defende, que se fecha, que se recusa a participar da vida humana.

A maior solidão é a do homem encerrado em si mesmo, no absoluto de si mesmo,
o que não dá a quem pede o que ele pode dar de amor, de amizade, de socorro.

O maior solitário é o que tem medo de amar, o que tem medo de ferir e ferir-se,
o ser casto da mulher, do amigo, do povo, do mundo. Esse queima como uma lâmpada triste, cujo reflexo entristece também tudo em torno. Ele é a angústia do mundo que o reflete. Ele é o que se recusa às verdadeiras fontes de emoção, as que são o patrimônio de todos, e, encerrado em seu duro privilégio, semeia pedras do alto da sua fria e desolada torre.

[Vinicius de Moraes]

domingo, 30 de janeiro de 2011

«Observa-te a ti mesmo, analisa-te de vários ângulos, estuda-te. Acima de tudo verifica se progrediste no estudo da filosofia ou no teu próprio modo de vida. A filosofia não é uma habilidade para exibir em público, não se destina a servir de espectáculo; a filosofia não consiste em palavras, mas em acções. O seu fim não consiste em fazer-nos passar o tempo com alguma distracção, nem em libertar o ócio do tédio. O objectivo da filosofia consiste em dar forma e estrutura à nossa alma, em ensinar-nos um rumo na vida, em orientar os nossos actos, em apontar-nos o que devemos fazer ou pôr de lado, em sentar-se ao leme e fixar a rota de quem flutua à deriva entre escolhos.»


Séneca, Cartas a Lucílio, II, 16, 3.

quarta-feira, 5 de janeiro de 2011

O soalho range. Do outro lado a neblina rodopia no rumor do mundo atravancado. Silêncio. Trazes a voz da morte vestida de vermelho. E eu trago em mim a vida das aves que gorjeiam na noite. Silêncio. Trazes em ti o desejo de vingança. E eu já só tenho em mim o punho curto da desesperança.

segunda-feira, 27 de dezembro de 2010

«A moral não vale mais: é o conjunto das regras de conduta que uma ordem social determinada impõe ao indivíduo para que este se integre no sistema e o sirva. Tudo o mais é justificação pseudoteológica, pseudofilosófica, pseudocientífica, é essa justificação que é denominada, de maneira pomposa e hipócrita, o seu "Fundamento".
O crime não está em partir de postulados, porque toda a gente parte de postulados, quer tenha consciência disso ou não, quer o confesse ou não. A cobardia está em dissimulá-los."

Roger Garaudy, Palavra de Homem.

terça-feira, 14 de dezembro de 2010

«Se eu hoje me esquecesse das tuas angústias, e tu das minhas, seríamos ambos traidores a uma solidariedade de berço, umbilical e cósmica; se amanhã não estivéssemos unidos nos factos fundamentais que a posteridade há-de considerar, estes anos decorridos ficariam sem qualquer significação, porque onde está ou tenha estado um homem é preciso que esteja ou tenha estado toda a humanidade.»


Miguel Torga, prefácio a "Bichos".

terça-feira, 2 de novembro de 2010

«O amor é o drama da completude, da unificação. Pessoal e ilimitado, leva à tirania do eu. O sexo é impessoal e pode ou não identificar-se com o amor. O sexo pode fortalecer e aprofundar o amor, ou intervir nele destrutivamente.»

Henry Miller, O Mundo do Sexo.

quarta-feira, 27 de outubro de 2010

«O homem é sempre mais confuso do que a mulher. Precisa da mulher - senão por outros motivos - pelo menos para arrumar as ideias. Às vezes, basta uma boa, limpa e saudável foda para endireitar as coisas. Sim, às vezes uma foda como deve ser chega para dissipar a ideia de é ele o único responsável pelo governo do mundo».

Henry Miller, O Mundo do Sexo.

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Acusam-me de mágoa e desalento/, como se toda a pena dos meus versos/ não fosse carne vossa,/ homens dispersos,/ e a minha dor a tua, pensamento./ Hei-de cantar-vos a beleza um dia,/ quando a luz que não nego abrir o escuro/ da noite que nos cerca como um muro,/ e chegares a teus reinos, alegria./ Entretanto, deixai que me não cale:/ até que o muro fenda, a treva estale,/ seja a tristeza o vinho da vingança./ A minha voz de morte é a voz da luta:/ se quem confia a própria dor perscruta,/ maior glória tem em ter esperança. (Carlos de Oliveira)