Dizem que Miller foi obsceno (palavra tão oca escreveu ele), que foi isto e aquilo, sobretudo um pornógrafo, discordo frontalmente com essas afirmações. H. Miller foi dos poucos escritores do século passado que ousou dizer o que todos pensam, mas negam veementemente, que todos fazem, mas criticam publicamente. A sua vida foi ímpar, e é importante falar da sua vida na medida em que os seus livros possuem um cunho autobiográfico sendo, normalmente, praticamente impossível de destrinçar o que é ou não autobiográfico . Não obstante isso, Miller escrevia muitíssimo bem, é certo que dizia coisas consideradas porcas, feias e más - abençoado seja - e era também de uma lucidez assustadora. Na realidade, tudo se resume a isto: ou se adora ou se odeia Miller, pertenço ao primeiro grupo. Porquê? Por isto: "Viver plenamente os seus desejos e, ao fazê-lo, modificar subtilmente a natureza destes, é o objectivo de todo o indivíduo que aspira a desenvolver-se", ou isto: "nenhum homem ou mulher pode gabar-se de ter dado uma boa foda, a não ser que ele ou ela tenham sido também bem fodidos.", ou isto: "O amor é o drama da completude, da unificação. Pessoal e ilimitado, leva à libertação da tirania do eu. O sexo é impessoal e pode ou não identificar-se com o amor. O sexo pode fortalecer e aprofundar o amor, ou pode intervir nele destrutivamente." E mais ainda: "A vida é agora, são todos os momentos, mesmo que o mundo esteja cheio de morte. A morte só triunfa ao serviço da vida."
Tudo isto diz Miller, tudo isto - que Miller diz frontalmente - muitos diriam, ou disseram, dissimuladamente mas Miller é sóbrio intelectualmente: "Às vezes, a descrição crua de um episódio sexual tem um significado profundo, é investida de um peso inimaginável" di-lo abertamente.
"Ninguém avança na vida em linha recta. Muitas vezes, não paramos nas estações indicadas no horário. Por vezes, saímos dos trilhos." Por fim, e como demonstração da perspicácia da sua frontalidade e aparente secura de palavras cito o seguinte excerto: "Na minha opinião, foi no mundo pagão, no mundo dos primitivos e no mundo da religião que o sexo foi mais bem compreendido e se exprimiu melhor.
No primeiro, o sexo foi exaltado no plano estético, no segundo, no plano mágico; e no terceiro, no plano espiritual. No nosso mundo, onde só o bestial prevalece, o sexo funciona no vazio.
Estamos a tornar-nos cada vez mais neutros, cada vez mais assexuais. A variedade crescente de crimes perversos dá um testemunho eloquente do facto. O assassino, como espécime patológico, é um produto inquietante da raça degenerada que mina sem descanso o tecido social. Emocionalmente aleijado, o assassino só consegue entrar em contacto com o seu semelhante quando derrama o sangue deste."
Nota: Todas as citações foram retirados do seu texto "O Mundo do Sexo". No original The World of Sex.