segunda-feira, 23 de novembro de 2009

Viagens

Releio muito pouco e desconfio das pessoas que dizem que relêem com frequência, há tantos livros que quero ler e nunca vou conseguir, mas volto com alguma frequência ao Zink, ao Agualusa e ao Camus.
Qualquer coisa neles apazigua, ou incendeia, algo em mim. E uma leitura, por vezes, basta-me para me fazer feliz.

quarta-feira, 4 de novembro de 2009

Desolamento

A noite comunica comigo em assombro,
em espasmos de vida.
Há um cheiro a medo -quiçá desordem -
miséria profunda.

O desabamento de um esqueleto outrora homem.

quinta-feira, 29 de outubro de 2009

O canto do filósofo:

Em boa verdade vos digo: Muita gente estúpida se formou e educou ao mais alto nível universitário e muito génio cava com enxada.

quarta-feira, 21 de outubro de 2009

A Obscenidade na Literatura

"estou honestamente convencido de que o medo e o horror que o obsceno inspira, particularmente nos dias de hoje, deriva mais da linguagem utilizada do que do pensamento(...)Todos ouvimos diariamente essas expressões «indecentes», «ordinárias», «feias», do berço à sepultura. Como e porquê, então, nos não tornamos imunes a elas? Que sortilégio possuem, de que não sabemos proteger-nos?"

Henry Miller, A Obscenidade na Literatura.

segunda-feira, 19 de outubro de 2009

Politicamente (in)correcto

Dizem que Miller foi obsceno (palavra tão oca escreveu ele), que foi isto e aquilo, sobretudo um pornógrafo, discordo frontalmente com essas afirmações. H. Miller foi dos poucos escritores do século passado que ousou dizer o que todos pensam, mas negam veementemente, que todos fazem, mas criticam publicamente. A sua vida foi ímpar, e é importante falar da sua vida na medida em que os seus livros possuem um cunho autobiográfico sendo, normalmente, praticamente impossível de destrinçar o que é ou não autobiográfico . Não obstante isso, Miller escrevia muitíssimo bem, é certo que dizia coisas consideradas porcas, feias e más - abençoado seja - e era também de uma lucidez assustadora. Na realidade, tudo se resume a isto: ou se adora ou se odeia Miller, pertenço ao primeiro grupo. Porquê? Por isto: "Viver plenamente os seus desejos e, ao fazê-lo, modificar subtilmente a natureza destes, é o objectivo de todo o indivíduo que aspira a desenvolver-se", ou isto: "nenhum homem ou mulher pode gabar-se de ter dado uma boa foda, a não ser que ele ou ela tenham sido também bem fodidos.", ou isto: "O amor é o drama da completude, da unificação. Pessoal e ilimitado, leva à libertação da tirania do eu. O sexo é impessoal e pode ou não identificar-se com o amor. O sexo pode fortalecer e aprofundar o amor, ou pode intervir nele destrutivamente." E mais ainda: "A vida é agora, são todos os momentos, mesmo que o mundo esteja cheio de morte. A morte só triunfa ao serviço da vida."
Tudo isto diz Miller, tudo isto - que Miller diz frontalmente - muitos diriam, ou disseram, dissimuladamente mas Miller é sóbrio intelectualmente: "Às vezes, a descrição crua de um episódio sexual tem um significado profundo, é investida de um peso inimaginável" di-lo abertamente.
"Ninguém avança na vida em linha recta. Muitas vezes, não paramos nas estações indicadas no horário. Por vezes, saímos dos trilhos." Por fim, e como demonstração da perspicácia da sua frontalidade e aparente secura de palavras cito o seguinte excerto: "Na minha opinião, foi no mundo pagão, no mundo dos primitivos e no mundo da religião que o sexo foi mais bem compreendido e se exprimiu melhor.
No primeiro, o sexo foi exaltado no plano estético, no segundo, no plano mágico; e no terceiro, no plano espiritual. No nosso mundo, onde só o bestial prevalece, o sexo funciona no vazio.
Estamos a tornar-nos cada vez mais neutros, cada vez mais assexuais. A variedade crescente de crimes perversos dá um testemunho eloquente do facto. O assassino, como espécime patológico, é um produto inquietante da raça degenerada que mina sem descanso o tecido social. Emocionalmente aleijado, o assassino só consegue entrar em contacto com o seu semelhante quando derrama o sangue deste."

Nota: Todas as citações foram retirados do seu texto "O Mundo do Sexo". No original The World of Sex.

quinta-feira, 8 de outubro de 2009

"Ma vie, c’est ce qui m’est arrivé, littéralement[...] Dans la vie, tout n’est qu’une question de chance : un matin vous tournez au coin de la rue et vous rencontrez la personne qui va gâcher les six prochaines années de votre vie." (Philip Roth em entrevista com Nelly Kaprièlian.)
Nem mais uma palavra a retirar ou a acrescentar.

P.S. Já li aqui algumas vezes que os livros de Philip Roth são caros, é um facto a que as editoras deviam prestar mais atenção. Em todo o caso, para a semana, dia 15 de Outubro, vai ser distribuído com a revista Sábado o livro "A Conspiração contra a América". Para adquiri-lo só se necessita de 1.5€ para além da revista, naturalmente.

sexta-feira, 18 de setembro de 2009

Paisagens

apanho-me estilhaçado outra vez nestas ruelas enviesadas e tento reconstituir um pensamento, respirar uma paisagem cândida, recomeço-me passo a passo, aos solavancos, tropegamente, aproximo o meu pensar de mim mesmo - do meu tacto, do meu sentir. E descubro-me sozinho, rei destronado num reino sem fé, olho em redor: não estou sozinho, estou isolado de mim mesmo.